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Marina Mello

Utopias

Obra de: Marina Mello
Destaque Livre

Quisera tocar tua alma

com as cores que aprendi na dor

não tintas breves,

mas tons que surgem

quando a luz encosta na ferida.

Com dedos trêmulos,

procuraria teu silêncio

onde o gesto vacila

e as palavras se desfazem.

Mas será que alcançaria?

O tempo

esse escultor cego

corrói até o que amamos,

transforma beleza em sombra,

lembrança em poeira.

A alma talvez resista,

vaga entre memórias,

enquanto o corpo se esfarela

como pegadas na areia

ao toque da maré.

A cada suspiro,

um fio se desfaz,

mas algo tênue, invisível,

fica.

Fica como luz em vidro fosco.

Sonhei pintar tua essência

com um arco-íris novo,

não aquele das promessas,

mas o que nasce após

o silêncio da tempestade.

Com o vermelho da ira vencida,

o azul de um afeto antigo,

e o violeta que lembra

a fé sobrevivente

nas ruínas da espera.

Essas cores não somem,

ficam nos gestos calados,

no que foi esquecido

mas pulsa

em algum lugar do corpo.

Não há eternidade no rosto,

nem beleza que não se canse.

Mas, se eu deixar em ti

um sopro,

um brilho leve no pensamento,

talvez, no fim,

quando tudo se apagar,

surja ainda,

por entre o vazio,

um arco-íris imortal.

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