Um gesto que não acaba
Amar ou ser amada, eis a minha eterna dança sob o crepúsculo. Um véu translúcido me cobre, ora com a febre de um querer que me consome, ora com a brisa suave de um ser desejada que mal me toca. Nunca, oh, nunca as duas mãos entrelaçadas na medida exata, o coração pulsando em uníssono na mesma melodia.
Quando amo, sou vulcão em erupção, um jardim em plena primavera, pétalas abertas a cada raio de sol que irrompe do teu olhar. Cada palavra, um verso não dito, cada toque, um anseio profundo que se estende para além do corpo. Minha alma se despe e se oferece, um banquete farto à tua espera. Mas, nesse fervor, sinto-te distante, como quem aprecia a paisagem sem sentir o chão sob os pés. Tua admiração é um espelho, e nele vejo a mim, bela em meu ato de entrega, mas não o reflexo de um amor igual. É solitário, esse jardim que só eu rego, esse calor que só eu emano.
E quando sou amada, ah, que doce afago! Mãos gentis me buscam, olhos ternos me seguem, e ouço canções sobre a beleza que habito. Sou musa, sou poesia, sou o porto seguro onde teus dias se acalmam. Meu ser floresce sob a luz do teu carinho, e a gratidão me inunda, um rio calmo e profundo. Mas, nesse mar de ternura, sinto um vazio estranho, uma melancolia que sussurra: “E onde está o teu próprio fogo, a tua própria sede?” É como estar aquecida por um sol que não é o meu, saciada por uma água que não brotou de minha própria fonte. A paixão que eu desejo oferecer, essa febre avassaladora, permanece dormente, um pássaro em gaiola dourada, incapaz de alçar voo.
Entre o ardor da doação e o aconchego da recepção, permaneço nesse entreato. Um suspiro profundo é tudo o que me resta, enquanto o tempo tece os fios invisíveis desse dilema. Talvez a plenitude seja um mito, uma quimera dourada que a vida se diverte em nos negar. Ou talvez, apenas talvez, a beleza resida nesse eterno movimento, nessa busca incansável pelo momento em que o amar e o ser amada, enfim, se encontrem, mesmo que por um breve e inesquecível segundo. Até lá, sigo dançando, a melodia muda, e o gesto, por vezes, ainda que belo, permanece inacabado.
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