×

O que deseja ler hoje?

Marina Mello

Solidão sem opção

Obra de: Marina Mello
Crônicas - Solidão Livre

A solidão chega com cartão de visita e senso de humor: educada, pontual e insegura sobre o horário do jantar. Não foi convidada; bateu à porta depois dos 40, conferiu a sala, viu que havia pouca coisa para consumir, restos de uma vida em promoção, e decidiu ficar. Explicou, com paciência de recepcionista de companhia aérea, que houve um erro no sistema e que agora sua reserva era indefinida.
Casamento arruinado é uma expressão que soa dramática, quando na verdade é um procedimento administrativo: assina-se a burocracia do fim, devolvem-se canecas, troca-se a senha do streaming e pronto. O luto é menor quando se compara ao trabalho de desmontar cadeiras e decidir o que sobra para o armário. O que não entra em caixa de papelão é a surpreendente habilidade das coisas em se tornarem lembranças fiscalmente inúteis. Ela, esse bicho-grilo chamado solidão, observou tudo com ar crítico, como um inspetor de patrimônio cultural: “Interessante coleção de histórias, pouca manutenção”.
Há uma diferença entre escolha e acidente. A solidão não perguntou se queria companhia; assumiu que ninguém estava disponível para trocar o canal naquela noite. Não planta flores, prefere regar expectativas moribundas para ver quanto tempo demora até apodrecer. Tem caráter utilitário: mais eficiente que amigos ausentes, menos ousada que amantes mal-programados. Às vezes, senta no sofá e liga a TV só para ouvir vozes que não cobram nada. Outras vezes, pratica o silêncio como quem estuda uma língua estrangeira: decorou as expressões faciais do eco.
Existem manuais sobre como se reinventar após os 40. São todos simpáticos e cheios de frases em itálico. “Redescubra-se!”, dizem, com uma foto de alguém sorrindo numa praia. A solidão lê esses manuais como se fossem guias turísticos: passa os olhos, aponta as rotas possíveis e, no fim, sugere um café. Não é maldosa; é apenas realista. Às vezes, sua ironia é um serviço público: alerta para o fato de que nem todas as reinvenções vêm com desconto na primeira compra.
As redes sociais, claro, oferecem exercícios práticos: trocar o status como quem muda de canal, postar fotos de pratos que exigem tempo de exposição e receber curtidas como atestado de existência. A solidão sorri. Entende que “curtir” é uma forma conveniente de companhia: rápida, com baixa exigência de conversa e sem precisar lavar a louça. Ela até admira a eficiência do algoritmo: consegue simular atenção com a mesma fidelidade de um assistente virtual. Só não tem calor humano, mas se fosse calor, provavelmente seria uma lâmpada de LED.
Há momentos de um humor ácido: quando um ex aparece por mensagem pedindo “apenas uma conversa”, a solidão bate palmas discretamente. Afinal, conversa pós-término costuma ser um inventário: quem ficou com qual planta, com quais promessas e com as senhas dos serviços. É comediante por instinto; transforma velhas rixas em anedotas curtas. Não se apieda, faz anotações mentais e republica a piada para uso pessoal em noites chuvosas.
O que impressiona é sua resistência aos calendários: feriados, aniversários e reuniões familiares têm o mesmo efeito prático: lembram da presença dela. As festas oferecem um cenário excelente para a solidão fazer networking: aproxima-se, observa, dá um comentário seco sobre a qualidade do buffet e se retira sem pedir sobremesa. Não é que não haja tentativas de expulsá-la. Há aplicativos, viagens e cursos de cerâmica. Todos admiráveis, e, às vezes, funcionam como anestesia momentânea. A solidão, no entanto, aproveita a cerâmica para aprender a modelar silêncio.
Por fim, a ironia maior é que, enquanto o mundo comemora a busca incessante por uma meta chamada “completo”, a solidão relaxa numa poltrona emprestada e lê jornais antigos. Não exige explicações, não pede perdão e não cobra hora extra. Dá, por vezes, uma companhia seca e honesta, sem aplausos, sem roteiro. Para quem esperava um final épico após os quarenta, ela oferece algo bem mais democrático: tempo para notar como as xícaras nunca mais combinam, como o sofá ocupa mais espaço no centro da sala e, sobretudo, como a vida continua com ou sem convidados permanentes.
Aceitar a presença dessa visitante inesperada não é rendição. É reconhecer que a ironia, se bem administrada, pode ser uma companhia mais instrutiva que muitos conselhos em itálico. E, se nada mais, a solidão garante um silêncio de qualidade profissional: pontual, sem exageros e, curiosamente, bastante observador.

Avalie esta obra

Média: 5.0 | 1 avaliações

Críticas dos Leitores

Faça login para comentar e avaliar.

Rute dos Santos Silva
Oi, Marina. Lendo sua irônica crônica fiquei penando que, depois de um tempo, ficar só pode não ser opção, mas sim falta dela. Você parece lidar bem com isso, o que é ótimo, diga-se. Mas nem todos tem sua capacidade de absorver, especialmente depois de uma certa idade, essas cacetadas com que a vida nos \"presenteia\". Não sei se aguentaria ficar só, sem opções, pois vou fazer 58 anos e tudo o que vejo pela frente é uma ausência dolorosa de perspectivas. Excelente trabalho. Continue publicando, pois a boa literatura sempre dói ou incomoda. Ou então incomoda doendo. Abraços.
Publicado em 14/04/2026