Pérola
Não quero tua alma,
quero o grito que ela engoliu
no meio da noite,
com os dentes trincados
e o corpo sujo de ontem.
Quero o que restou
quando a promessa não veio.
A cor que não existe na paleta, mas
a que sai quando se esfrega
sal na carne.
Não falo de arco-íris.
Isso é coisa pra quem ainda acredita
em final feliz.
Falo da luz suja
que invade o quarto
quando alguém morre
e ninguém acende o interruptor.
Tua beleza,
já foi.
Virou sombra na parede,
pó nos vincos da toalha,
cheiro de suor no lençol
que ninguém troca.
Se eu puder te deixar algo,
não será um sopro.
Será um corte.
Uma memória que arde
quando encosta a chuva.
Talvez aí sim,
num segundo antes do esquecimento,
nasça uma cor nova:
não o vermelho do amor,
nem o azul da paz,
mas um tom entre hematoma e silêncio…
intraduzível,
mas teu.
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