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Marina Mello

O tribunal das eleitas

Obra de: Marina Mello
Contos Livre

O Jardim Afetivo de Gaia era uma respiração. Uma utopia em gestação, feita de silêncios pactuados e palavras que se pesavam antes de serem soltas. Ali, “ciúme”, “posse” ou “relacionamento” eram sussurros do passado, banidos em favor de “fluxo”, “acolhimento” e “coexistência sensível”. Os murais — folhas prensadas, sementes e resina de jatobá — guardavam máximas como: “O vínculo não é linha reta. É respiração.” e “Reciprocidade é oferenda, não cobrança.”

Homens não eram proibidos, mas filtrados. Chamavam-nos de presenças observáveis. Havia três. Leandro era o mais discreto.

Ninguém sabia muito sobre ele. Arquiteto, diziam. Seus olhos tinham a lentidão das nuvens, como se ouvissem uma melodia particular. Caminhava com a leveza de quem não pertence, mas observa. Lia jornais antigos. Plantava com um cuidado quase reverente.

Letícia o havia convidado. Eu, Elvira, uma das fundadoras, nunca entendi por quê. Talvez Letícia visse nele o reflexo de algo que nem ela mesma compreendia.

Eu me via ali, Elvira, uma guardiã do não-apego, com minhas certezas de que o afeto, quando não retribuído, virava vapor. Mas percebi que ultimamente minhas falas sobre “energias” e “vibrações” se adensavam perto dele. Eu buscava sua resposta, um olhar, um mínimo aceno que validasse minhas teorias. E ele, simplesmente, não respondia. Sua quietude me atravessava mais do que qualquer debate.

A primeira vez que me senti verdadeiramente exposta foi na Casa do Chá. Eu discorria sobre a liberdade do afeto, a ausência de amarras. Ele me ouviu. Seus olhos, sem pressa, pareciam acolher cada sílaba, e devolviam… nada. Apenas um espaço vasto. De repente, minhas palavras soavam vazias. Um eco. E compreendi: o meu discurso era, talvez, um clamor por uma resposta que ele não daria.

Noites a fio, eu o via na varanda, olhando a lua. Não com a ânsia de um apaixonado, mas com a quietude de quem esculpe o ar. Ele não era hostil. Nem gentil. Apenas era. E esse “era” me desorganizava.

Letícia foi quem sugeriu a Roda.
— Uma sensibilização coletiva. Para sentir os atravessamentos, os desequilíbrios energéticos.
Apoiamos. Mas eu, Elvira, sentia que preparava um tribunal. Um palco para o não dito explodir. Eu queria que ele, de algum modo, me libertasse do meu próprio enigma. Que reagisse. Que quebrasse a superfície. Qualquer coisa que me permitisse nomear o que estava crescendo em mim.

A Roda: O Confronto Cru

O salão foi preparado. Tapetes no chão, algumas almofadas empilhadas. O cheiro adocicado de mirra. O tambor, desta vez, não soava em surdina; estava ausente. A energia era crua, sem os véus rituais.

Leandro entrou por último. Caminhou até o círculo vazio onde o tambor costumava ficar e sentou-se ali, como se aquele fosse seu lugar de observação. Não havia leveza em seus passos, apenas uma gravidade inquestionável. Seus olhos, por um instante que pareceu se esticar, pousaram em Letícia. Um lampejo que ninguém mais percebeu, exceto ela. E Letícia não desviou. Seu olhar encontrou o dele, e uma tensão quase violenta se instalou.

Elvira engoliu em seco. A garganta arranhava.

Soraia tentou romper o gelo:
— Esta roda não é acusatória. É… uma escuta do que se move entre nós.

Um silêncio denso, como um muro, preencheu o espaço. Aquele silêncio não era de reverência, mas de espera, de nervos à flor da pele.

Elvira, o xale apertado como se contivesse a si mesma, falou, a voz mais baixa do que pretendia:
— Há afetos tensionados. Reflexos que nos mostram algo que não queremos ver.

Leandro a olhou. Seus olhos, sempre tão distantes, sustentaram o dela. Não havia sorriso, nem raiva. Apenas uma presença bruta. Elvira sentiu um arrepio. Aquele olhar não era de um espelho vazio. Era de alguém que via.

Miriam, com a voz embargada pela tensão, disse:
— Dói. Quando você não faz nada. Parece que você escolheu machucar calado.

A frase cortou o ar.

Leandro, pela primeira vez, quebrou a imobilidade. Sua mão direita moveu-se, como se fosse tocar o joelho, mas contraiu-se no ar, um espasmo. Respirou fundo. O peito subiu e desceu de forma visível, dolorosa. Seus olhos varreram o círculo, pousaram brevemente em Letícia, depois em Elvira, antes de se fixarem no chão.

Então, com a voz rouca, raspando na garganta, ele disse:
— Eu… eu não sei como caber aqui. Meu silêncio não é… estratégia.
Ele parou, ofegou.
— É… é o que me sobra. Eu não tenho… não tenho mais.

As últimas palavras foram quase um gemido abafado. Uma humilhação velada.

Letícia, que até então parecia petrificada, irrompeu. Seu riso seco cortou o silêncio.

— O que te sobra, Leandro? — sibilou, erguendo-se bruscamente. O corpo tremia. — Sempre te sobrou! Sobrou a gente. Sobrou o que a gente sentia. Você é um labirinto, sim, mas um labirinto vazio que se alimenta do que a gente projeta! É mais fácil não ter nada, não é? Assim, ninguém pode te cobrar!

A voz dela subiu de tom. Quase um grito. Não olhava para Leandro, mas para Elvira, como se a acusasse também de compactuar com aquela inércia.

Os olhos de Elvira se arregalaram. Uma onda de calor e vergonha a atingiu. O discurso de Letícia, cru, quebrou o verniz da coexistência sensível. Elvira sentiu o impulso de se levantar, de gritar de volta, de defender não Leandro — mas a si mesma. Sua mão se fechou num punho sob o xale. Uma lágrima escorreu quente. Ela a limpou com o dorso da mão, o gesto brusco, animalesco. A boca se abriu. Nenhuma palavra saiu. A voz estava presa. Sua face era a de quem levou um tapa.

A roda não terminou. Ela se desfez com o estrondo de tudo que nunca fora dito.

As mulheres se entreolharam. Rostos tensos. Olhos marejados. Testas franzidas. Ninguém ousou sugerir outra sessão.

Na manhã seguinte, o quarto de Leandro estava vazio. A rede pendia, inerte. Não levou o casaco. Nem o livro. Apenas foi.

Na estaca da horta comunitária, um fio de barbante gasto. Letícia olhou. O suspiro dela foi um grito mudo. Tocou o barbante. Uma dor antiga aflorou em seus dedos.

No mural principal, dias depois, alguém — ninguém soube quem — rabiscou com carvão vegetal:
“Alguns não ficam. Outros, talvez, nunca chegaram.”

Eu, Elvira, fui ao lago naquela noite. Sentei na pedra onde ele costumava se deter.

A lua, cheia e fria, parecia menor.

Não chorei. Não falei. Apenas observei o reflexo trêmulo na água.

E me perguntei, no fundo da minha própria solidão, com o gosto amargo da verdade na boca:

Se o que restava era a dor da ausência.
Ou a ferida de um espelho
que era só meu.

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