O temor de atravessar
O restaurante era pequeno, barulhento, indiferente. Pessoas mastigavam depressa, os olhos fixos em telas. O ruído do lugar não fazia companhia, apenas preenchia os espaços que ninguém ali parecia disposto a ocupar com palavras.
Ela chegou pontual. Sentou-se sem sorrir. Apenas ajeitou o casaco sobre o encosto e cruzou os braços. Os olhos, cansados, repousaram no copo. Talvez cautela. Talvez espera.
— Você sempre chega antes — ela disse, mexendo no anel do dedo médio como se girasse um pensamento antigo.
Ele deu de ombros. — Gosto de observar o lugar antes que fique cheio.
Vieram o cardápio, os talheres, a água. Pediram pratos que não exigiam entusiasmo.
Comeram quase em silêncio. Ele arriscou um comentário banal sobre o trânsito; ela assentiu, mas não respondeu. Como dois viajantes que dividem o mesmo banco no trem, mas seguem em sentidos contrários.
— Você parece mais distante hoje — ela arriscou, ainda olhando o copo.
— Talvez eu esteja — ele respondeu, sem convicção. Soou como quem lê a própria ausência em voz baixa.
O garçom trouxe a conta. Ela passou o cartão antes que ele se mexesse. Ao se levantar, tocou de leve a boca, gesto mínimo, mas definitivo. Como quem encerra, com elegância, uma página não virada.
— Você tem o olhar de quem já não está mais aqui — ela disse.
Ele quis responder. Mas o som não veio. O ar entre eles pesava mais que silêncio.
Ela virou-se. Ele moveu-se. Apenas o suficiente para sugerir que se levantaria. Mas não o fez.
Ficou.
Talvez quisesse. Talvez fosse tarde. Talvez fosse só o medo de parecer ainda mais perdido ao chamá-la.
Dias depois, reencontraram-se por acaso em uma galeria de arte. A cidade, como certas lembranças, às vezes insiste em círculos.
Ela estava de preto, os cabelos presos, os olhos escondidos por óculos escuros que não disfarçavam a tensão do maxilar. Ele vestia uma camisa com um botão solto e o olhar de quem ensaia arrependimentos.
Encontraram-se diante de uma tela abstrata. Cores desbotadas, traços interrompidos. Uma imagem que parecia ter desistido de si mesma no meio do caminho.
— Gosto desse — ela disse. — É como se o artista parasse antes de decidir se era dor ou esperança. Às vezes, é isso o que a gente mais teme: terminar algo.
Ele respirou fundo, como quem tenta puxar de volta o que já se foi.
— Eu sempre quis entender por que você parte antes do fim.
Ela sorriu. Mas o sorriso caiu nos ombros.
— Eu sempre parto. Mesmo quando fico.
Houve um silêncio. Denso. Não vazio. Expectante.
Ela se virou para sair. Mas parou. Virou-se devagar, por cima do ombro.
Eles se olharam. Sem defesas. Ela parecia exausta, mas ainda presente. Como quem ainda guarda uma fresta. Um último abrigo para escutar o que viria.
Ele avançou um passo.
A boca se abriu.
Quase.
“Fica…”
Mas a palavra morreu antes de nascer.
Sua garganta queimou com o gosto metálico do medo.
E se ela ficasse? E se ele dissesse e estragasse o pouco que restou?
Entre os dois, apenas o som leve do piso sob os pés dela.
Um estalo seco, como um aviso.
Ele recuou.
Ela seguiu.
Notas de uma gaveta esquecida
“Minha voz viaja com bagagem restrita.
Leva medos dobrados, dúvidas guardadas em sacolas rasgadas e promessas que nunca encontrei coragem de desembalar.
Na galeria, ela esperava. Eu sei. Talvez quisesse ouvir algo ridículo, como ‘Fica comigo’ e, no fundo, eu quis dizer.
Dei um passo. Um só. Como quem testa a firmeza da madeira antes da travessia.
Mas a tábua rangeu.
E eu tenho esse hábito antigo:
não atravessar quando a ponte ainda range.”
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