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Angelina Marques

O que quase foi…

Obra de: Angelina Marques
Crônicas Livre

Eles se reconheceram sem nunca terem se visto.

Não foi encanto imediato, desses que o cinema vende com trilha sonora e câmera lenta. Foi algo mais discreto e talvez por isso mais perigoso: uma familiaridade súbita, como se a conversa já tivesse começado antes, em algum lugar que nenhum dos dois lembrava.

As idades coincidiam sem esforço. Os interesses se tocavam com naturalidade. Nenhum precisava traduzir referências, explicar piadas ou simplificar pensamentos. Era raro. Era simples. Era, sobretudo, possível.

E foi exatamente aí que falhou.

Porque o possível exige um gesto.

Trocaram um olhar, desses que duram um segundo a mais do que o aceitável e um “oi” levemente entusiasmado, carregado de intenções que não ousaram virar frase. Havia ali um convite implícito, mas ninguém se candidatou a dizê-lo em voz alta.

Talvez por medo de errar o tom.
Talvez por respeito excessivo às circunstâncias.
Talvez, e isso é o mais provável, por aquele velho hábito humano de perder o essencial enquanto administra o acessório.

Conversaram pouco. Riram o suficiente. Calaram demais.

Depois, seguiram.

Ele encontrou alguém disponível. Alguém que cabia na rotina, que não exigia coragem, que não fazia perguntas difíceis. Uma escolha segura, como quem prefere o caminho iluminado ao caminho certo.

Ela fez o mesmo. Não por falta de sentir, mas por excesso de cálculo. Há decisões que não parecem erro no momento — só se revelam assim anos depois, quando já não há como revisá-las.

E a vida, sempre eficiente, tratou de preencher os espaços.

Compromissos, responsabilidades, pequenas alegrias domesticadas. Nada faltava — exceto aquilo que nunca chegou a existir.

De vez em quando, sem aviso, voltava o incômodo.

Um rosto que a memória insistia em reconstruir.
Uma voz que parecia ter dito mais do que disse.
Um instante que, de tão curto, ganhou o direito absurdo de durar para sempre.

Porque o que não acontece não termina.

Fica suspenso, intacto, protegido da realidade e de suas imperfeições. Não decepciona, não desgasta, não exige manutenção. Torna-se, com o tempo, uma espécie de versão ideal daquilo que poderia ter sido e talvez nunca fosse.

Mas isso pouco importa.

A dor não está no que foi.
Está no que poderia ter sido suficiente para mudar tudo e não foi nem tentado.

E assim, entre escolhas razoáveis e dias perfeitamente esquecíveis, eles seguem suas vidas paralelas, carregando em silêncio o peso leve e insuportável de um “oi” que prometeu o mundo… e cumpriu exatamente nada.

Porque, no fim, há encontros que não falham por falta de destino.

Falham por falta de coragem.

E esses são os que mais demoram a passar.

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