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Larápio

O corpo desobediente

Obra de: Larápio
Contos Livre

Começou no dedo.
Batia na mesa. Parava. Voltava.
Ele segurou.
Parou.
Soltou.
Voltou.
Guardou as mãos nos bolsos e saiu antes que o movimento encontrasse outro lugar.
No terceiro quarteirão, o pé esquerdo desviou e não foi falha nem tropeço nem distração mas um gesto inteiro que começou no tornozelo subiu pela perna atravessou o quadril e completou a curva sem que ele conseguisse interromper no meio como se o comando tivesse chegado antes dele e ele apenas tivesse chegado depois.
Parou.
Voltou.
No mesmo ponto, virou de novo.
Seguiu assim.
No trabalho, manteve as mãos sob a mesa, presas entre as coxas.
Chamaram para escrever.
A caneta desceu com força maior do que o necessário e abriu o papel.
Escreveu: sal
Riscou.
Escreveu de novo: sal
Mais fundo, atravessando a fibra.
Parou com a ponta ainda apoiada, como se a mão esperasse outra ordem que não vinha dele.
Levantou.
Chamaram seu nome outra vez.
Foi até a mesa.
Perguntaram se estava bem.
Antes que pudesse organizar qualquer resposta, a boca abriu e disse, clara, alta demais para a sala:
— Eu roubei.
Silêncio.
Ele tentou fechar os lábios, mas a mandíbula desceu de novo, curta, seca:
— Eu roubei.
Alguém riu sem convicção.
Outro pediu que repetisse.
A cabeça assentiu.
— Eu roubei.
Não havia nada para confessar.
Ficaram olhando.
Ele também.
Foi dispensado.
Na rua, andou mais do que precisava, sem escolher, parando em pontos que não reconhecia como decisão, retomando sem impulso, como se o corpo estivesse medindo distâncias que não lhe interessavam.
Em casa, sentou-se.
As mãos repousaram sobre as pernas.
Quietas.
Ficaram assim tempo suficiente para que ele acreditasse que tinham parado.
Então os dedos começaram a se mover juntos, não em espasmo, mas em sequência, testando a dobra do tecido, alisando, pressionando, soltando, repetindo o mesmo trajeto até acertar a pressão exata que deixava a superfície lisa.
Ele tentou interromper.
Conseguiu segurar um pulso por alguns segundos.
O outro braço continuou.
À noite, deitou.
Fechou os olhos.
O corpo não fez nada por um tempo longo demais.
Respiração regular.
Braços pesados.
Quase adormecia.
O corpo virou de lado.
Ajuste de ombro.
Encaixe de joelho.
A cabeça encontrou o travesseiro em outro ponto.
Ficou.
O movimento se completou sem resto.
Silêncio.
Depois, já sem intervalo claro entre um gesto e outro, as pernas se recolheram um pouco mais, o braço inferior deslizou sob o peso do tronco até encontrar uma posição estável, e a respiração mudou de ritmo, mais curta, como se respondesse a um cálculo que não passava por ele.
Manhã.
Som de água.
De pé.
Cozinha.
Filtro na mão.
Pó medido.
Água no ponto.
O líquido desceu sem erro.
Xícara.
Sopro curto.
Um gole.
Outro.
A xícara voltou limpa para a pia.
Lavada.
Seca.
Guardada.
Quarto.
Cama.
Livro aberto na metade.
Os olhos seguiram linha após linha sem retorno, sem hesitação, virando a página sempre no mesmo ponto, antes do fim, como se já soubessem o que vinha.
Outra.
Outra.
Outra.
Nenhum ajuste.
Nenhuma pausa.
O corpo continuou.

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