O arquiteto de nuvens
Ele empilha tijolos de vento e argamassa de saudade,
Desenha varandas voltadas para o sol dela,
E ergue, entre o café e a lida, uma cidade
Onde o rei é cativo e a rainha é uma tela.
Acredita-se só em sua febre, num deserto de afeição,
Pois olha o rosto dela e só enxerga a distância,
Como se o peito dela fosse pedra, e não pulsação,
Guardando para si toda a sua vã arrogância.
O castelo dele flutua, sem chão e sem porta, Alimentado pelo medo de ouvir um “não”. Enquanto isso, ela caminha no mesmo compasso,
Carregando o peso de um segredo que a consome.
Ela molda o vazio, dá contorno ao cansaço,
E escreve nas águas o som daquele nome.
Pensa que ele é gelo, que vive em outro plano,
Onde não há espaço para o seu toque ou seu rastro;
E mergulha, solene, no próprio engano,
Navegando um mar sem bússola e sem mastro.
O castelo dela é de bruma, de sombra e de espera, Pintado com as cores de uma falsa primavera. Cruzam-se as pontes levadiças no azul do firmamento,
Duas torres altivas que o orgulho sustenta no ar.
Estão tão próximos, unidos pelo mesmo tormento,
Mas morrem de sede com medo de transbordar.
Ela chora o desdém que ele nunca sentiu;
Ele teme o vazio que ela não possui.
E o amor, que entre os dois nunca se partiu,
É o rio que passa, mas que nenhum dos dois flui.
Críticas dos Leitores
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