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Letras Digitais
Candongas

Insistir por quê?

Obra de: Candongas
Críticos Livre

Desejar continuar. Sim, há força nessa enunciação. Mas também há cansaço. O desejo de continuar não é um ato trivial, é uma revolta afetiva diante de um mundo que se organiza cotidianamente para nos fazer desistir.

Quando se nasce sob a égide da necropolítica, desejar continuar é um gesto revolucionário. Para corpos racializados, para as dissidências de gênero, para aqueles e aquelas cuja existência é constantemente empurrada para a beira do abismo, continuar não é dado, é luta. Desejar continuar não é apenas sobreviver; é afirmar uma dignidade que o sistema insiste em negar. É uma recusa obstinada à lógica do descarte.

Esse desejo, porém, não pode ser romantizado. Ele carrega dores, lacunas, desistências parciais e silenciosas. A desistência, longe de ser fraqueza, pode ser refúgio necessário. Pode ser retirada estratégica, como aqueles grandes estrategistas, conforme ensinam as tradições de resistência que, ao longo da história, souberam recuar para sobreviver, reorganizar forças e reinventar-se. Há força na pausa. Há potência na fuga que não se rende, mas que se reinventa fora dos olhos vigilantes do opressor.

Contudo, para desejar continuar, é preciso mais do que resiliência. É preciso desmanchar anestesias afetivas. O neoliberalismo nos ensinou a não sentir ou a sentir apenas o que convém ao capital: culpa, medo, inveja, desejo de consumo. Desaprender isso é tarefa árdua. Reaprender a confiar, a cuidar, a partilhar o choro e o riso. Taí uma micropolítica cotidiana que pode desestabilizar os afetos colonizados. Isso exige práticas concretas: rodas de conversa, cozinhas comunitárias, rituais coletivos, pedagogias do cuidado. Espaços onde a escuta é prática radical e onde a dor encontra nome, forma e solidariedade.

A alegria, nesse cenário, não é ingênua. É subversiva. Rir, dançar, amar, encher a cara são gestos que, em contextos de opressão, abrem fendas na hegemonia. São fissuras luminosas que afirmam: estamos vivos, e nossas vidas importam. A alegria, quando compartilhada, organiza. Transforma-se em energia política. Alimenta assembleias, ocupações, marchas. Sustenta o corpo e a esperança. É práxis que desafia a narrativa da impotência.

Mas desejar continuar também exige saberes outros. As sabedorias silenciadas, na marra às vezes, das comunidades quilombolas, indígenas, periféricas, LGBTQIAP+, camponesas, nos oferecem mapas. Elas nos ensinam que o cuidado é coletivo, que o tempo pode ser cíclico, que o território é corpo e que corpo é história. Seus saberes não são apenas resistência: são projetos de mundo. Neles, encontramos metodologias de partilha, categorias de análise que desestabilizam o universalismo branco, visões de futuro enraizadas na reciprocidade e na interdependência.

Daí a importância do “caminhar junto”. Mas caminhar junto exige mais do que boas intenções. Requer estratégias. Quais alianças precisamos tecer? Quais mecanismos de decisão compartilhada precisamos cultivar? Como garantir que as diferenças não se tornem hierarquias? Caminhar junto é também conflito, negociação, escuta. É trabalho cotidiano, sem glamour, mas com horizonte.

No fundo, desejar continuar é afirmar uma ética. Uma ética da insistência. Da presença. Do corpo que não aceita ser silenciado. Do olhar que não se curva. Da mão que se estende mesmo quando a esperança vacila. É um imperativo moral que se impõe diante da barbárie: continuar, apesar de tudo. Continuar com outros, com outras. Continuar com memória, mas também com invenção.

Sim, desejar continuar é um gesto radical. É um projeto político. É uma aposta. Uma semente. E nós, que escrevemos com a carne viva da experiência, sabemos: há sementes que rompem o asfalto.

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