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Letras Digitais
Rute dos Santos Silva

Gente invisível

Obra de: Rute dos Santos Silva
Crônicas - Sociais Livre

Na fila do banco, ele é o correntista 045. No mercado, o senhor do carrinho amassado. No posto, o motorista do carro velho. Ninguém sabe seu nome. Chamam-no de “coroa”, “tiozão”, “cliente”. Ele anda entre multidões como um vulto. Paga, espera, volta pra casa. Ninguém o nota. As mulheres desviam o olhar, os jovens zombam do corte de cabelo. Ele não é desejável, nem interessante. Não tem dinheiro para impressionar, nem histórias que brilhem na vitrine das redes sociais. Trabalhou a vida inteira e colheu pouco. Não por falta de esforço, mas porque o mundo não o escolheu. Na calçada, é só mais um. No e-mail, é o destinatário de spam. No WhatsApp da família, mandam correntes religiosas, mas ninguém pergunta: “Você está bem?” Mas ele existe. Respira, pensa, sente. Tem dores antigas, desejos inconfessáveis, medos que ninguém imagina. Às vezes sonha, outras vezes apenas dorme. Observa os outros com a dignidade de quem já sofreu demais para julgar. E, sem saber, se torna espelho. Ele mostra o que muitos temem: o anonimato, o fracasso, o esquecimento. Sua solidão é a ponta visível de uma epidemia muda. Ele é símbolo, sim. Mas também denúncia. Também farol. Porque talvez o mais terrível não seja ser ignorado — é perceber que quase todos estão ocupados demais para ver o que se tornou da própria humanidade. O homem invisível anda entre nós. E, se olharmos bem, talvez descubramos que ele não é outro. Ele somos nós. Daqui a pouco. Ou desde já.

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