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Alexandre Modena

É melhor se des(iludir)?

Obra de: Alexandre Modena
Contos Livre

Na cidade onde as luzes pareciam sempre suaves demais — como se filtradas por um sonho —, ele acreditava ter encontrado o sentido de tudo. Bastou um olhar dela, um gesto mínimo, e sua mente construiu um palácio inteiro: futuro, promessas, cumplicidade. Era tão convincente que ele passou a viver mais dentro dessa construção do que no mundo real.

Ela, por sua vez, também o observava. Não o homem em si, mas o que ele poderia ser. Viu nele firmeza onde havia dúvida, coragem onde havia hesitação, amor onde havia apenas possibilidade. Era confortável moldá-lo em silêncio, como quem esculpe uma estátua sem nunca tocar na pedra.

Durante semanas, conversaram como quem confirma hipóteses. Cada palavra encaixava perfeitamente — não porque fosse verdadeira, mas porque ambos já haviam decidido o que ouvir.

Até que, numa tarde comum demais para sustentar fantasias, o silêncio apareceu.

Ele percebeu que não sabia quem ela era quando não sorria. Ela percebeu que não sabia quem ele era quando não tentava impressionar.

As perguntas começaram a surgir — e nenhuma delas combinava com as respostas que haviam imaginado.

— Acho que a gente se enganou — disse ele, sem drama.

Ela concordou com um leve aceno, quase aliviada.

Curiosamente, não houve dor intensa, nem ruptura violenta. Apenas uma espécie de esvaziamento sereno, como um cenário desmontado após o fim de uma peça.

Caminharam juntos por mais alguns minutos, agora sem roteiro.

— Engraçado — disse ela —, foi tão fácil acreditar em tudo aquilo.

Ele soltou um meio sorriso.

— Mais fácil ainda é parar de acreditar.

E seguiram em direções opostas, não como quem perde algo, mas como quem finalmente enxerga o caminho sem precisar inventá-lo.

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