Carta: silêncio em tempos de ruído
A quem ainda souber ouvir,
Escrevo esta carta não por acreditar que ela será lida com a atenção que as palavras merecem, mas pelo simples ato de resistência que é registrar o que se sente em um mundo que desaprendeu a pausar. Olho ao redor e vejo uma multidão de rostos iluminados por telas, mas mergulhados em uma escuridão de sentido.
Vivemos a era da futilidade coreografada. No Instagram, a vida é um recorte editado, uma sucessão de filtros que escondem as olheiras do cansaço e as rachaduras da alma. O medo, esse companheiro constante, tornou-se um hóspede silencioso. Temos medo de não sermos vistos, mas, paradoxalmente, temos pavor de sermos verdadeiramente conhecidos.
A dor hoje é silenciosa porque não encontra onde repousar. A escuta tornou-se um artigo de luxo, substituída por frases de efeito e reações rápidas de emoji. Ninguém mais quer carregar o peso da narrativa do outro; as pessoas buscam apenas o reflexo de suas próprias convicções. A empatia, que deveria ser a ponte entre dois mundos, transformou-se em uma “curtida” mecânica — um gesto que simula proximidade enquanto mantém uma distância abismal.
Sinto a banalidade nos cercando como uma névoa. As conversas são superficiais, os encontros são distraídos por notificações e a profundidade é vista como um incômodo, algo “pesado demais” para um tempo que exige leveza a qualquer custo. Mas que leveza é essa que nos deixa vazios?
“A ausência de escuta é a forma mais cruel de solidão, pois nos faz sentir invisíveis mesmo quando estamos cercados de gente.”
Resta-nos a pergunta: até quando suportaremos esse deserto de afetos? Minha dor não quer um filtro. Meu medo não quer um algoritmo. Eu só queria, por um instante, a segurança de um olhar que não se desvia para a próxima notificação.
Com um cansaço que as telas não traduzem,
Uma mulher deste tempo.
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