A dor que se reconhece
Desaprendi teu nome aos poucos,
como quem desbota uma tinta antiga
sem saber se lamenta a cor que vai
ou o engano de tê-la chamado de eterna.
Houve um tempo em que te fiz altar —
e não te culpo por não ser divindade.
Fui eu quem esculpiu milagres
em gestos que eram só humanos.
Hoje vejo: não era amor sozinho,
era também minha ânsia de ser salvo,
meu gosto pelo abismo
quando vinha com promessa de céu.
Doeu — claro que doeu —
mas há uma lucidez estranha na ferida:
ela revela mais sobre quem sente
do que sobre quem partiu.
Talvez eu tenha amado errado,
ou amado certo demais
para alguém que não pediu
tamanho peso em suas mãos.
Desiludir-se, descubro agora,
não é o fim da crença —
é apenas o fim da mentira
que eu mesmo sustentei.
E nisso, há um alívio discreto:
não te perdi por inteiro —
perdi apenas a versão
que inventei de nós dois.
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