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Alexandre Modena

Admiração versus humilhação

Obra de: Alexandre Modena
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Crônicas - Satíricas Livre

Bruna não era vaidosa. Era aparecida, o que, em certas esquinas da alma, é ainda mais perigoso. Tinha o dom de brotar em fotos alheias, rir um segundo acima do tom e usar tudo o que brilhava: brincos, palavras, opiniões.

Um dia descobriu as sobrancelhas magnéticas. Não eram só coláveis, eram “ultrasensoriais”, “resistentes à chuva e à inveja”, dizia a embalagem que veio junto com um cupom para clarear o sovaco (ela ignorou o cupom, mas o achou simpático). A vendedora assegurou que ajudava, inclusive, em partos emperrados e para arranjar namorado .

Aplicou as sobrancelhas com a solenidade de um ritual. De frente ao espelho, fez poses de perfil. Estava diferente. Estava… expressiva. “Agora sim”, pensou. “Vão me notar.”

Foram notando. Primeiro, um colega de trabalho comentou: “Mudou algo no seu rosto?” Ela sorriu, misteriosa. “Pode ser a luz.” Depois, a moça do caixa disse “ficou linda, moça”. Bruna flutuava.

Até que, no ônibus lotado, um empurrão do acaso e o suor do meio-dia conspiraram: a sobrancelha esquerda caiu no ombro do passageiro ao lado; a direita ficou pendurada na sobrancelha natural, como se pedisse desculpas antes de cometer suicídio. Uma senhora fez o sinal da cruz. Um adolescente comentou: “Parece peruca de sobrancelha!”. Alguém gritou “O sangue de Jesus te repreenda. Tá amarrado!”.

Bruna recolheu os restos com o rosto vermelho de vergonha. Desceu uma parada antes, guardou as peças no bolso da blusa e entrou na primeira farmácia. Comprou um par de óculos de grau, mas sem grau, e um batom roxo. “Inovar”, disse para si mesma. “A arte de recomeçar.” O resultado dava calafrios em um ovo cozido, mas Bruna seguiu em frente.

Desde então, Bruna virou uma espécie de árvore de Natal ambulante. Um dia aparece de franja falsa, noutro com sardas pintadas, já chegou a usar cílios apenas num olho . É “conceitual”, explicou.

Se alguém rir, ela ri junto. Não por resignação. Por método. A gargalhada virou sua moldura. E nesse retrato do dia a dia, talvez Bruna seja só mais uma entre tantas tentando caber em si mesma, ainda que usando acessórios emprestados.

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