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Angelina Marques

Geometria do desejo

Obra de: Angelina Marques
Prosa poética - Ilusões Livre

Fulano amava Beltrana.
Não com a serenidade doméstica dos casais que dividem contas e detergente, mas com aquela devoção febril reservada às causas perdidas e aos santos silenciosos. Beltrana era, para Fulano, menos uma pessoa do que uma hipótese de felicidade.
Beltrana, porém, amava Sicrano.
Amava-o com a obstinação dos que confundem ausência com profundidade. Sicrano demorava a responder, sumia por dias, reaparecia com frases vagas e um charme que só a escassez sabe fabricar. Quanto menos oferecia, mais valioso parecia. Era uma lei econômica aplicada ao afeto: raridade gera desejo.
Sicrano, por sua vez, amava Alguém.
Não um alguém propriamente concreto, mas uma ideia ambulante de completude. Um rosto possível, uma voz futura, uma promessa nunca encarnada. Sicrano não amava uma pessoa; amava o espaço vazio onde ela poderia caber.
E esse Alguém não amava ninguém.
Ou ao menos assim parecia. Caminhava pela vida com a leveza suspeita dos que não depositam a própria paz nas mãos alheias. Não perseguia, não esperava, não interpretava vírgulas em mensagens. Era, por isso mesmo, irresistível. Nada seduz mais do que quem não precisa seduzir.
A roda girava assim, rangendo como mecanismo antigo: um olhando para outro, sempre de perfil, nunca de frente.
Até que um dia, porque os afetos também sofrem alterações climáticas, a roda girou ao contrário.
Fulano cansou de Beltrana e descobriu certa paz em esquecê-la. Beltrana, ferida pela indiferença recém-adquirida de Sicrano, voltou os olhos para Fulano e encontrou nele virtudes que antes lhe escapavam. Sicrano, finalmente exausto de perseguir o invisível, percebeu Beltrana com uma ternura tardia. Até Alguém, esse continente autossuficiente, experimentou pela primeira vez a vertigem de desejar Sicrano.
Era a correção cósmica, pensariam os otimistas.
A justiça sentimental.
O universo enfim organizando arquivos.
Mas não.
A inversão apenas preservou a mesma arquitetura do vazio.
Agora Beltrana queria Fulano, que já não a queria. Sicrano queria Beltrana, que já olhava para outro lado. Alguém queria Sicrano, que, ironicamente, passara a desejar o que não podia ter.
Mudaram-se as direções; manteve-se a distância.
Porque talvez o desejo seja menos sobre encontro e mais sobre horizonte. Aproximamo-nos de alguém e, ao tocá-lo, perdemos um pouco do encanto que a distância generosamente inflava. O inacessível possui ótima assessoria de imprensa.
Queremos o longe porque nele projetamos perfeições impossíveis. O perto sua, contradiz, responde mal-humorado, esquece datas e desmonta fantasias.
Talvez amar seja isto: uma sofisticada incompetência para desejar o disponível.
E assim seguiram todos, cada qual orbitando um centro ausente, como planetas mal resolvidos.
Não houve final feliz. Nem triste. Apenas continuidade.
Porque algumas rodas não foram feitas para parar, apenas para nos convencer, a cada volta, de que na próxima será diferente.

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