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Rute dos Santos Silva

Sem dúvidas…

Obra de: Rute dos Santos Silva
Contos - Ficção científica Livre

O nome dele é Clóvis.

Clóvis acredita em placas.

E em avisos. E em instruções. E em qualquer frase que termine com ponto final.

Quando lê “Cuidado, piso molhado”, entende que o piso está sendo molhado por cuidado. Um gesto de zelo. Caminha confiante, escorrega, cai de costas e processa o shopping:

— Se era pra ter cuidado, por que molharam?

Na fila do banco, a senha chama: “Caixa 3”.

Clóvis levanta e traz uma caixa de papelão esquecida no canto.

— Chamaram, eu vim.

O segurança tenta explicar. Clóvis explica de volta:

— O erro está na linguagem. Se não era pra trazer caixa, chamem outra coisa. As palavras precisam assumir responsabilidade.

No trânsito, vê uma placa: “Reduza a velocidade”.

Diminui o vidro do carro.

— Já reduzi. Próxima instrução?

É multado logo adiante. No recurso, escreve:

“Cumpri exatamente o que foi solicitado. O problema não está na minha interpretação, mas na falta de precisão de quem ordena.”

Pede uma pizza. Na caixa está escrito: “Antes de usar, leia o manual”.

Clóvis lê o manual inteiro antes de abrir a caixa. A pizza esfria. Ele liga pro fabricante:

— O manual não especificou que podia esfriar. Agora a instrução está comprometida. Quero outra pizza e um adendo na próxima edição.

A namorada termina por mensagem: “Precisamos conversar.”

Clóvis responde:

— Já estamos conversando. Assunto resolvido.

Três dias depois, envia flores:

“Você disse que precisávamos. Eu concordei. Não entendi o encerramento.”

No trabalho, o chefe diz:

— Você não veste a camisa da empresa.

No dia seguinte, Clóvis aparece com duas camisas, uma por cima da outra, e a logomarca colada no peito.

— Agora visto. Se ainda não for suficiente, posso aumentar a camada.

É chamado novamente à sala. Sai convencido de que foi promovido à incompreensão e à injustiça.

No médico psiquiatra, ouve:

— É preciso abrir seu coração.

Clóvis se deita e começa a desabotoar a camisa.

— O senhor prefere anestesia local ou confiança plena?

O médico pede calma. Clóvis anota mentalmente: “Profissionais usam metáforas para esconder a falta de método.”

Em casa, lê num livro: “É preciso olhar para dentro.” Tenta desesperadamente ver o próprio estômago, sem sucesso.

Passa alguns minutos diante do espelho, em silêncio.

— Já olhei. Não vi nada de novo. O problema deve estar na profundidade do reflexo.

À noite, escreve no diário:

“O mundo insiste em usar metáforas num manual de instruções. As pessoas dizem uma coisa querendo dizer outra e ficam irritadas quando alguém entende exatamente o que foi dito. Não sou eu o confuso. É a linguagem que não se decide.”

Fecha o caderno. E dorme tranquilo.

Afinal, se bilhões de pessoas interpretam diferente dele, a estatística só prova uma coisa: alguém precisa começar a estar certo e, por eliminação, só pode ser ele.

Chegou a esta conclusão enquanto ficou parado cerca de 40 minutos ao ver uma placa escrito Pare na calçada.

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