Utopias
Quisera tocar tua alma
com as cores que aprendi na dor
não tintas breves,
mas tons que surgem
quando a luz encosta na ferida.
Com dedos trêmulos,
procuraria teu silêncio
onde o gesto vacila
e as palavras se desfazem.
Mas será que alcançaria?
O tempo
esse escultor cego
corrói até o que amamos,
transforma beleza em sombra,
lembrança em poeira.
A alma talvez resista,
vaga entre memórias,
enquanto o corpo se esfarela
como pegadas na areia
ao toque da maré.
A cada suspiro,
um fio se desfaz,
mas algo tênue, invisível,
fica.
Fica como luz em vidro fosco.
Sonhei pintar tua essência
com um arco-íris novo,
não aquele das promessas,
mas o que nasce após
o silêncio da tempestade.
Com o vermelho da ira vencida,
o azul de um afeto antigo,
e o violeta que lembra
a fé sobrevivente
nas ruínas da espera.
Essas cores não somem,
ficam nos gestos calados,
no que foi esquecido
mas pulsa
em algum lugar do corpo.
Não há eternidade no rosto,
nem beleza que não se canse.
Mas, se eu deixar em ti
um sopro,
um brilho leve no pensamento,
talvez, no fim,
quando tudo se apagar,
surja ainda,
por entre o vazio,
um arco-íris imortal.
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