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Letras Digitais
Alexandre Modena

Sem perdão

Obra de: Alexandre Modena
Amor Livre

O riso dela ainda vibrava nos cantos mais doloridos da memória. Agudo, metálico, quebrando o silêncio como vidro esmagado sob os pés. As mãos dela, o calor que ele ainda sentia na pele, não eram lembranças; eram brasas invisíveis, queimando quando ele fechava os olhos, quando tocava algo que lembrava o toque dela. Cada gesto, cada sorriso, cada palavra dita parecia tramado para perfurar sua confiança. Ele sentia isso no zumbido constante da coluna, no aperto do peito, nos punhos cerrados.

No mercado, ela surgiu. Um instante. Frieza nos olhos dela, indiferença calculada. O corpo dele reagiu antes da mente: passos medidos, respiração curta, mãos agarrando o carrinho até doer nos nós dos dedos. Ele falava, sorria, acenava. Cada gesto era guerra silenciosa, resistência contra a lembrança viva que ocupava cada espaço dentro dele. Cada músculo lembrava, cada nervo gritava, e nada o preparara para viver com o que perdera.

Perdão? Impossível. Entregar um pedaço de si mesmo que jamais voltaria inteiro. Raiva, vigilância, desconfiança. Corpos vivos dentro dele, ocupando o dia, o silêncio, o ar. Cada memória de sorrisos dissolvia-se em cinza. Cada promessa quebrada pesava no peito, tornando a respiração difícil, como se cada inspiração trouxesse o cheiro do engano. O perdão não era luz; era resistência. Sobrevivência dentro de si mesmo, com a ferida crua e aberta. Era aprender a existir mesmo sob o peso da lembrança, a continuar respirando mesmo quando tudo o que amara se tornara cinza.

Ele atravessava a cidade destruída de sua vida. O banco de praça onde riam juntos rangia ao vento, manchado de restos esquecidos. A rua que evitava lembrava passos dela, cheiro antigo, sorrisos agora lâminas. Cada esquina, cada sombra, cada reflexo em vitrines vazias era presença viva, ferindo sem palavra. Ele respirava, atento, desconfiado, estranhamente vivo. Uma vida estranha. Não de leveza, mas de aceitação da própria resistência, de sobrevivência cotidiana, carregando em cada gesto e memória o que o perdão significava agora: não esquecer, não absolver, mas habitar o que o feria e seguir, inteiro apenas naquilo que restara de si mesmo.

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Críticas dos Leitores

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Rute dos Santos Silva
Excelente crônica, Alexandre. Fico pensando se essa coisa de perdoar todos o tempo todo não é uma forma de evitar que foquemos em fatos que, por si só, dispensam qualquer forma de perdão, pois causaram tanta dor e sofrimento que é melhor ser chamado de insensível do que \"perdoar\". Pra quê fazer isso? A dor passa, o trauma desaparece e todo mundo vive feliz pra sempre? Abraços, garotão.
Publicado em 24/04/2026