O limiar do vazio
Ele está parado onde o tapete termina e o mundo começa. Atrás, o silêncio da casa é um casaco velho, pesado mas conhecido; uma solidão que não fere porque já não espera nada. Ali, ser só é um deserto plano, sem relevos de dor, onde o relógio marca as horas apenas para confirmar que ele ainda respira. É a paz das cinzas: não há fogo, mas também não há fumaça.
À frente, o amor acena como um precipício florido. Prosseguir é aceitar o ruído, é permitir que outra voz desarrume a estante milimétrica de seus dias. Amar, ele sabe, é o ato violento de se tornar vulnerável. É trocar a segurança do vazio pelo risco do estilhaço.
O dilema não é entre a alegria e a tristeza, mas entre o nada e o tudo. De um lado, a solidão, esse deserto sem sede. Do outro, o outro, esse oásis que pode ser miragem. Ele hesita. Um pé ainda sente o calor da madeira familiar; o outro já experimenta o frio do vento da rua. Sair é um renascimento perigoso. Ficar é uma morte lenta. E, naquela soleira, ele descobre que a maior distância do mundo cabe no espaço de um único passo.
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