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Letras Digitais
Rute dos Santos Silva

Por que o mal é banal?

Obra de: Rute dos Santos Silva
Crônicas - Cotidianas Livre

Chamam de mal como se fosse sempre um trovão, ou seja, alto, rasgando o céu, impossível de ignorar. Mas, na maior parte do tempo, ele não faz barulho nenhum. Ele chega de mansinho, com cara de rotina, com cheiro de café requentado e pressa no olhar.
É o atendente que não olha nos olhos.
O comentário ácido que vem fácil demais.
A indiferença diante de quem claramente precisa de ajuda, mas não de “muita” ajuda, só um gesto mínimo, pequeno demais para justificar o esforço.
O mal banal não exige coragem, nem planejamento. Ele só pede ausência: de atenção, de empatia, de reflexão. É o piloto automático das pequenas crueldades. Aquele modo de existir em que ninguém se pergunta nada. Nem sobre si, nem sobre o outro.
Não há vilões nesse cenário, apenas pessoas ocupadas demais para perceber o efeito do que fazem. Ou do que deixam de fazer.
É curioso: o mal que destrói manchetes costuma ser raro, excepcional, quase teatral. Já o outro, esse que passa despercebido: é repetido, cotidiano, quase eficiente na sua discrição. Ele não choca, não paralisa. Ele se acumula.
Uma palavra dita sem cuidado aqui, um silêncio conveniente ali.
Uma risada no momento errado.
Um julgamento rápido que poupa o esforço de compreender.
E assim, sem que ninguém perceba exatamente quando começou, o ambiente se torna mais áspero, mais frio, mais difícil de atravessar.
O mais desconcertante é que esse tipo de mal não nasce de uma intenção clara de ferir. Ele nasce da economia de pensamento. Da preguiça de sentir. Da escolha constante pelo caminho mais fácil, mesmo quando esse caminho passa por cima de alguém.
Não há monstros, apenas gente comum.
E talvez seja justamente isso que mais inquieta.

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