Solidão sem opção
A solidão chega com cartão de visita e senso de humor: educada, pontual e insegura sobre o horário do jantar. Não foi convidada; bateu à porta depois dos 40, conferiu a sala, viu que havia pouca coisa para consumir, restos de uma vida em promoção, e decidiu ficar. Explicou, com paciência de recepcionista de companhia aérea, que houve um erro no sistema e que agora sua reserva era indefinida.
Casamento arruinado é uma expressão que soa dramática, quando na verdade é um procedimento administrativo: assina-se a burocracia do fim, devolvem-se canecas, troca-se a senha do streaming e pronto. O luto é menor quando se compara ao trabalho de desmontar cadeiras e decidir o que sobra para o armário. O que não entra em caixa de papelão é a surpreendente habilidade das coisas em se tornarem lembranças fiscalmente inúteis. Ela, esse bicho-grilo chamado solidão, observou tudo com ar crítico, como um inspetor de patrimônio cultural: “Interessante coleção de histórias, pouca manutenção”.
Há uma diferença entre escolha e acidente. A solidão não perguntou se queria companhia; assumiu que ninguém estava disponível para trocar o canal naquela noite. Não planta flores, prefere regar expectativas moribundas para ver quanto tempo demora até apodrecer. Tem caráter utilitário: mais eficiente que amigos ausentes, menos ousada que amantes mal-programados. Às vezes, senta no sofá e liga a TV só para ouvir vozes que não cobram nada. Outras vezes, pratica o silêncio como quem estuda uma língua estrangeira: decorou as expressões faciais do eco.
Existem manuais sobre como se reinventar após os 40. São todos simpáticos e cheios de frases em itálico. “Redescubra-se!”, dizem, com uma foto de alguém sorrindo numa praia. A solidão lê esses manuais como se fossem guias turísticos: passa os olhos, aponta as rotas possíveis e, no fim, sugere um café. Não é maldosa; é apenas realista. Às vezes, sua ironia é um serviço público: alerta para o fato de que nem todas as reinvenções vêm com desconto na primeira compra.
As redes sociais, claro, oferecem exercícios práticos: trocar o status como quem muda de canal, postar fotos de pratos que exigem tempo de exposição e receber curtidas como atestado de existência. A solidão sorri. Entende que “curtir” é uma forma conveniente de companhia: rápida, com baixa exigência de conversa e sem precisar lavar a louça. Ela até admira a eficiência do algoritmo: consegue simular atenção com a mesma fidelidade de um assistente virtual. Só não tem calor humano, mas se fosse calor, provavelmente seria uma lâmpada de LED.
Há momentos de um humor ácido: quando um ex aparece por mensagem pedindo “apenas uma conversa”, a solidão bate palmas discretamente. Afinal, conversa pós-término costuma ser um inventário: quem ficou com qual planta, com quais promessas e com as senhas dos serviços. É comediante por instinto; transforma velhas rixas em anedotas curtas. Não se apieda, faz anotações mentais e republica a piada para uso pessoal em noites chuvosas.
O que impressiona é sua resistência aos calendários: feriados, aniversários e reuniões familiares têm o mesmo efeito prático: lembram da presença dela. As festas oferecem um cenário excelente para a solidão fazer networking: aproxima-se, observa, dá um comentário seco sobre a qualidade do buffet e se retira sem pedir sobremesa. Não é que não haja tentativas de expulsá-la. Há aplicativos, viagens e cursos de cerâmica. Todos admiráveis, e, às vezes, funcionam como anestesia momentânea. A solidão, no entanto, aproveita a cerâmica para aprender a modelar silêncio.
Por fim, a ironia maior é que, enquanto o mundo comemora a busca incessante por uma meta chamada “completo”, a solidão relaxa numa poltrona emprestada e lê jornais antigos. Não exige explicações, não pede perdão e não cobra hora extra. Dá, por vezes, uma companhia seca e honesta, sem aplausos, sem roteiro. Para quem esperava um final épico após os quarenta, ela oferece algo bem mais democrático: tempo para notar como as xícaras nunca mais combinam, como o sofá ocupa mais espaço no centro da sala e, sobretudo, como a vida continua com ou sem convidados permanentes.
Aceitar a presença dessa visitante inesperada não é rendição. É reconhecer que a ironia, se bem administrada, pode ser uma companhia mais instrutiva que muitos conselhos em itálico. E, se nada mais, a solidão garante um silêncio de qualidade profissional: pontual, sem exageros e, curiosamente, bastante observador.
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