Modernidade líquida
Eles olham. Olham muito. Telas, vitrines, rostos, tudo passa diante dos olhos com uma velocidade que não permite permanência. Há movimento, há estímulo, há cor. Falta o essencial: o encontro.
Ver, hoje, tornou-se um gesto raro, quase antiquado. Ver exige pausa, exige silêncio, exige um certo desconforto porque, ao enxergar de verdade, somos obrigados a admitir o que está ali. E admitir dá trabalho. É mais fácil deslizar o dedo.
Eles dizem amar. E dizem com frequência, com emojis, com legendas cuidadosamente calculadas. O amor virou um evento, uma vitrine portátil, uma performance contínua. Não se trata mais de sentir, trata-se de parecer sentir. O gesto importa menos que o registro. O abraço vale pelo ângulo. O beijo, pela luz. E assim, pouco a pouco, o afeto vai sendo substituído pela sua própria encenação.
Curiosamente, nunca se falou tanto de sentimentos. Nunca se declarou tanto. Nunca se exibiu tanto. E, ainda assim, nunca foi tão difícil sustentar um olhar sem distrações, uma conversa sem interrupções, um vínculo sem plateia.
Há uma fadiga silenciosa nisso tudo. Uma exaustão que não se confessa, porque até o cansaço precisa ser bonito, compartilhável, editado. Pensar, por exemplo, tornou-se um luxo incômodo. Pensar demora, exige contradição, provoca dúvidas e dúvidas não performam bem. Melhor repetir. Melhor reagir. Melhor seguir o fluxo.
E o fluxo é raso.
Não se trata de falta de inteligência. Trata-se de desistência. Uma escolha quase imperceptível de trocar profundidade por agilidade, reflexão por resposta imediata, essência por aparência. Afinal, parar para pensar pode significar perceber o vazio — e o vazio não rende curtidas.
Assim, seguem. Olhando sem ver. Amando sem tocar. Vivendo sem realmente estar.
Talvez o mais curioso seja que, no fundo, ainda saibam. Há momentos, breves e incômodos, em que algo escapa: um silêncio longo demais, um olhar que não encontra retorno, uma sensação de que tudo aquilo, apesar de tão visível, não é exatamente real.
Mas logo passa. Sempre passa.
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