Por Andréia Oliveira
Desde tempos imemoriais, quando a palavra ainda era apenas um sussurro ao pé da fogueira, a literatura se fez presença no âmago do humano. Contar histórias foi, desde sempre, um ato de resistência contra o efêmero, uma forma de reter o tempo, de moldar o destino, de expandir a existência para além das amarras da carne. Foi na tessitura das palavras que a humanidade encontrou o eco de sua própria alma, criando deuses e demônios, reis e mendigos, mundos que jamais pisou e vidas que jamais viveu.
A literatura não é apenas um reflexo da realidade — ela a transcende. Pela ficção, adentramos reinos fabulosos, terras ignotas onde dragões rugem e fadas sussurram segredos ao vento. Mas, mesmo ao falar do real, ela o faz com a liberdade de um pássaro no céu, tecendo tramas onde o possível e o impossível se entrelaçam em um balé sutil. Ela nos transporta para o íntimo de seres forjados pela tinta, nos obriga a sentir suas dores, a carregar seus fardos, a amar e odiar com a mesma intensidade com que os vivemos em nossa própria pele.
E o que dizer da poesia? Ah, a poesia… Se a prosa é o tronco da grande árvore literária, a poesia são seus galhos mais altos, aqueles que tocam o infinito. Somente a poesia consegue nomear o que nos escapa, aquilo que pulsa no silêncio entre as palavras, aquilo que se insinua na alma sem pedir licença. Um verso bem lançado pode ferir como uma lâmina ou acariciar como o toque de alguém a quem amamos; pode acender revoluções ou acalmar tempestades interiores. A poesia canta as dores que não ousamos confessar, celebra amores condenados ao esquecimento e resgata da poeira do tempo instantes que a memória já não alcançaria sozinha.
Mas há algo ainda mais fascinante na literatura: ela nos faz melhores, mesmo quando nos mostra o pior de nós. Quem nunca se viu refletido no olhar ambíguo de um anti-herói? Quem nunca reconheceu, no vilão mais desprezível, uma sombra de sua própria humanidade? Os grandes personagens são espelhos nos quais contemplamos nossas falhas e virtudes, nossos medos e esperanças. No palco das páginas, a alma humana se desnuda — e, ao vê-la exposta, aprendemos a compreendê-la melhor.
Ler é uma experiência que nos amplia. Faz-nos viver mil vidas sem abandonar nosso corpo, amar mil amores sem trair o coração, viajar por séculos sem que os pés saiam do chão. A literatura, com sua magia sutil e inescapável, arranca-nos do mundo para que possamos enxergá-lo com outros olhos. Se há um dom verdadeiramente humano, ele reside na capacidade de contar histórias e, mais ainda, na de se perder e se encontrar dentro delas.
Que nunca nos faltem livros, versos, contos, epopeias. Que nunca nos falte a coragem de imaginar e a sensibilidade de sentir. Pois enquanto houver literatura, haverá humanidade, e enquanto houver humanidade, haverá esperança.
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