Por Candongas
Querido Elias,
Hoje a tarde caiu como um véu morno sobre meu corpo cansado. Bebi um chá de laranjeira e me sentei à varanda, só para ouvir o vento brincar nas folhas. Havia qualquer coisa no ar… uma inquietude antiga, dessas que a gente carrega sem nome.
Eu, que aprendi a andar com os próprios pés, que conquistei voz, espaço, decisões — me vi, por dentro, um tanto oca. Não por arrependimento, não. Mas por um tipo de silêncio que se deita na cama comigo há algumas estações.
Tive tantos encontros. Alguns vibrantes, outros apenas efêmeros. Conheci homens firmes, outros frágeis, alguns indecisos. Muitos sumiram com o dia seguinte. Todos olhavam para mim como quem vê uma estrela que se admira, mas não se toca.
E no entanto, a presença mais constante tem sido a de um homem que nunca me cobrou brilho. Um homem simples, moreno claro, com marcas no rosto e gestos lentos. Mora no andar de cima. Traz o lixo na manhã de sábado, cuida das plantas com olhos de quem conversa com elas.
É ele quem me oferece ajuda quando a fechadura emperra, quem já me trouxe sopa quando adoeci. Quem me olha, sem pressa, como quem respeita o tempo de uma flor antes de abrir.
Nunca me declarei. Na verdade, nunca o vi como opção. Talvez porque cresci ouvindo que o amor mora em alturas inatingíveis. Que ele viria montado em promessas, e não em silêncios cuidadosos. Mas ontem, ao vê-lo ajeitar o casaco sobre os ombros com um gesto tão humano, me perguntei: e se o amor estiver ali? No vizinho que não se impõe, mas permanece?
Já conquistei tanto, amigão. Tantos papéis, diplomas, viagens. Mas me pergunto se, ao erguer muros para proteger minha liberdade, não acabei deixando do lado de fora quem teria me abraçado, mesmo sem entender minhas revoluções.
Não sei ainda o que isso tudo significa. Mas hoje, pela primeira vez em muito tempo, quis escrever para alguém. E foi você quem me veio à mente. Porque talvez só você possa entender o que é ser livre… e ainda assim sentir falta de colo.
Com carinho e um pouco de saudade,
L.
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